Mostrando postagens com marcador Criança Estranha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Criança Estranha. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Eu era uma criança meio estranha. Morava em Poá (tá, isso todo mundo sabe), cidade pequena, conhecia todo mundo. Sempre fui a 1ª da classe. Era a típica "popular por interesse": te integro e vc me passa as respostas. Aprendi a ler com 3 anos revistinhas em quadrinhos.Com 5 já lia tudo. Tinha playground na minha casa. Era grande mesmo. Tinha espaço, tinha criança na rua que ficava meses esperando eu chamar pra brincar no playground... Mas eu não chamava. Eu preferia ficar no meu mundinho, que acabou virando um mundão. Meu "mundinho" era a leitura. Eu lia tudo, do rótulo da farinha láctea às histórias doidas q a minha irmã mais velha escrevia. E aí eu fui crescendo... continuei estranha, mas resolvi fingir que acreditava na minha popularidade, fiquei mais sociável. Mas ainda ia ao cinema sozinha. É, sozinha, na cidade vizinha, assistir um filme e voltar. Ah, que triste, ela não tinha amigos! Tinha, tinha sim. Tinha amigos de verdade, amigos de mentirinha, irmã, sobrinho, prima.... Mas de vez em quando tinha que ficar sozinha... até porque com o tempo fui percebendo que sinceridade e espontaneidade são minhas principais qualidades e defeitos, e que as pessoas se machucam com a verdade... às vezes era mais fácil se afastar do que fingir, mentir, etc. Mas voltando ao começo, eu era mesmo uma criança estranha. Estranha e inteligente. E que lia muito. Lia também os livros didáticos da minha irmã mais velha. Tem um texto de que eu me lembro sempre que estou com raiva. Lembrei dele ontem, mas estava na frente do PC dessa vez... Ah, o google! E achei o texto que eu lia há uns 15 anos atrás, no tal do livro didático que se perdeu por aí. Fiquei tão feliz de encontrá-lo! Já li e reli umas dez vezes, e vou postar aqui pra vocês lerem também. =)


"Eu estava chateada da vida. Tão chateada, que esqueci o motivo da chateação. Era alguma coisa misturada com raiva da vizinha, unha encravada, falta de dinheiro, além de ter detestado aquele domingo, porque chovia. Aí, achei que não existia no mundo unha mais encravada do que a minha, nem vizinha mais implicante do que a da casa ao lado... porque eu estava cantando e ela fechou a janela com toda força e gritou antes:
- Voz de taquara rachada, desafinada!
Era muita chateação pra uma pessoa só, de modo que chorei no banheiro, passei pó no nariz, pra disfarçar... e fui me vestir. Escolhi uma calça jeans bem velha, uma camiseta roxa porque estava triste, e um chinelo torto pra combinar com a unha encravada. Foi aí que, penduradinho no cabide, no fundo do armário, encontrei o monstrinho de olhos doces. No primeiro instante, levei um susto e gritei.
- Ai! Tem um monstro no meu armário, pendurado no meu cabide!
Aí o monstrinho de olhos doces deu um pulinho e gritou:
- Ui! Tem uma dona de nariz vermelho, com pó branco por cima. de calça jeans desbotada, chinelo torto e unha encravada no MEU armário!
Aí Cabidelim perguntou:
- Seu nariz está vermelho por debaixo do talco... por quê,hein? Por quê, de quê, de quezinho? Você chorou baixinho? Está com alguma grave tristeza escondida? Alguém chateou você de você de vocêzinha?
- A vizinha é uma sapa . Implicou com a minha cantoria. Bateu a janela, disse que tinha voz de taquara rachada... snif! - Chorei, enquanto Cabidelim me abraçava com seus braços ouvintes.
- E a sua voz, como é que é? Canta um pouquinho pra desabafar!
- Cantar? O que de quê de quezinho? - perguntei. Tenho a mania de pegar o jeito de falar de todo mundo, é só ouvir e pronto, imito.
- Canta alguma coisinha ora! Canta só pra desabafar! Sou todo braços! - Disse Cabidelim.
- Todo braços? - perguntei, sem entender direito o monstrinho.
- Todo ouvidos ora! Eu escuto pelos braços, pra abraçar quem me fala! Sou ótimo ouvinte- abraçador e confidente. "

(Sylvia Orthof, in "Cabidelim, o doce monstrinho)

Se alguém não entendeu o porquê de eu gostar tanto desse texto, não me pergunte, porque eu também não sei. Eu não sou mais criança, mas continuo estranha.